Publicado em 6/15/2010 1:19:22 PM

Aldeia Kakané Porã recebe lançamento de documentário

Indígenas acompanharam o filme “Quebrando o Silêncio”, que trata do infanticídio praticado até hoje em algumas aldeias do Brasil

Kakané Porã, a primeira aldeia urbana do sul do Brasil, construída pela Prefeitura no bairro de Campo de Santana, foi palco do lançamento estadual do documentário “Quebrando o Silêncio”, na noite desta segunda-feira (14). O filme, dirigido pela jornalista Sandra Terena, aborda a prática do infanticídio em algumas aldeias brasileiras. Nessa prática, crianças deficientes, gêmeos e filhos de mãe solteira são sacrificados logo ao nascerem.
Sandra passou três anos pesquisando em aldeias de todo o país e colheu dezenas de depoimentos em 80 horas de gravações. São índios que fugiram de suas tribos para salvar a vida de seus recém-nascidos. “É um costume que faz todos sofrerem, a mãe, o pai e toda a aldeia. Por isso se faz necessária a discussão do tema. Para os povos indígenas reverem seus conceitos, pois a cultura não pode parar no tempo”, afirma Sandra, que levou ao evento a pequena Mariana, sua filha de dois anos de idade.
O filme foi produzido pelo também jornalista Oswaldo Eustáquio, que é o fundador da ong Aldeia Brasil – entidade defensora das causas indígenas. As 35 famílias remanescentes das tribos caingangue, guarani e xetá que vivem em Kakané Porã compareceram e se emocionaram com o filme. “Eu não sabia que isso existia. É muito triste saber que alguns índios matam as crianças”, comentou Lizéia Vargas, descendente de caingangue.
 
Referência
Kakané Porã é uma das quatro aldeias urbanas do país. As outras estão em São Paulo, Manaus e Campo Grande. “Aqui a situação é diferenciada, pois a aldeia de Curitiba foi a única totalmente planejada. As famílias foram consultadas e o projeto foi feito de acordo com as suas expectativas. Foi como a realização de um sonho”, ressalta a jornalista, que descende da tribo Terena, no interior de SP e acompanhou o processo de formação da aldeia curitibana.
As 35 casas de dois quartos foram construídas pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) com recursos do Fundo Municipal de Habitação e entregues aos índios em dezembro de 2008. A implantação do projeto é resultado de convênio entre Prefeitura, Cohab, Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Funai.
O acordo pôs fim a um impasse que durou seis anos, já que os índios haviam se instalado em uma área imprópria para moradia no Parque Iguaçu - a reserva Cambuí - e não poderiam mais permanecer por lá.
O modelo de aldeia urbana implantada em Curitiba pode servir como referência para outras grandes cidades, como explica Oswaldo Eustáquio. “Mais de 50% dos índios brasileiros estão nos centros urbanos. Contudo, apenas Curitiba ofereceu a eles uma situação digna, com qualidade de vida. Outras grandes cidades que possuem realidade indígena deveriam ter a mesma sensibilidade que nossa capital teve ao formar a aldeia”, diz Eustáquio, que já conheceu as aldeias urbanas de São Paulo e Campo Grande. “Foram feitas sem planejamento, pelos próprios índios que foram chegando e se amontoando. Assemelham-se a guetos, muito diferente da organização encontrada aqui”, completa o jornalista.

“Sem comparação”
A opinião é unânime: todos os que vivem na aldeia Kakané Porã gostam do local. É o caso do servente de pedreiro Isael Pereira, que reside na aldeia com a irmã Nazaré e a sobrinha Fernanda. Antes, a família morava na reserva do Cambuí. “Não tem nem comparação, aqui é muito melhor. Temos mais espaço, mais condições, lugar para fazer as reuniões da comunidade. Graças à Prefeitura que nos arranjou este lugar”, diz.
Indioara Luiz Paraná mora na aldeia e faz curso de magistério em Faxinal do Céu. Está se preparando para dar aula na escola que será construída na aldeia. “Lá no Cambuí era precário, sujo, com muito inseto. Aqui é tudo de bom, cada família tem sua moradia. Estamos muito felizes”, afirma.
A irmã dela, Indiamara Luiz Paraná é artesã e tem quatro filhos – Yuri, o caçula, tem apenas três meses. “Aqui temos conforto, todos nós gostamos de morar aqui. Nos sentimos mais indígenas, porque podemos viver em comunidade e ajudar uns aos outros. Somos muito agradecidos à Cohab e à Prefeitura, que sempre nos atendem da melhor maneira”, finaliza.
 

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