Publicado em 4/20/2011 6:05:42 PM

Casa da Cohab garante dignidade a ex- moradora de rua

A jovem Alyne, que é portadora do vírus HIV e ex-dependente química, hoje cuida da sua filha de dois meses

Uma casa boa pode mudar totalmente a vida de uma pessoa. Alyne Rosana de Lima de Oliveira, 22 anos, é prova disto. Ex-moradora de rua, portadora do vírus da Aids e ex-dependente de crack, ela tinha poucas esperanças. Hoje é casada, frequenta a igreja e é mãe da pequena Ester Vitória, que vai completar dois meses no domingo (24). “Deus me abençoou com esta casa e minha vida mudou”, diz ela.

Em dezembro do ano passado, ela foi atendida pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) com uma casa de dois quartos no empreendimento Moradias Corbélia, no bairro São Miguel. Mudou-se com o marido Elias Santos de Oliveira, 31 anos e dois meses depois nasceu a Ester. “Felizmente ela nasceu já na casa nova, pois onde a gente morava antes era sem condições”, afirma.

Antes de receber a casa da Cohab, o casal vivia em uma moradia precária na beira de um córrego na Vila Nova Barigui. “O valetão transbordava com qualquer chuvinha. E aquela água suja me fazia muito mal. Como sou soropositivo e tenho a imunidade mais baixa, vivia doente, com herpes, infecção urinária e bronquite”, conta.

Hoje a família está feliz da vida. A filha nasceu sem o vírus e Alyne leva uma vida normal, apenas toma coquetel de medicamentos para controlar a doença. Elias é responsável pela única fonte de renda da família - recebe R$ 545 mensais do Benefício de Prestação Continuada, um valor pago pelo INSS a pessoas sem condições de trabalhar. Ele foi brutalmente espancado em 2007 ao defender a irmã. Na ocasião perdeu uma orelha, um olho e parte da mobilidade.

Vida dura
As dificuldades na vida de Alyne começaram muito antes de morar em beira de rio. As primeiras lembranças são de quando tinha cinco anos e vivia com o pai, a mãe, três irmãs e dois irmãos, no Fazendinha. Caçula entre as mulheres, era abusada sexualmente pelo pai, que a ameaçava de morte caso contasse a alguém. “Doía muito. O dia que eu não aguentei mais fugi sozinha. Eu tinha na cabeça que ia arranjar uma outra casa para morar”, lembra.

Durante três anos ela viveu na rua. Dormia embaixo de marquises, revirava lixo em busca de comida, mendigava e aprendeu a beber. Com oito anos decidiu voltar para a casa da mãe, porém os abusos do pai continuaram. Já vivida, com a experiência adquirida nas ruas, resolveu contar à mãe. “Ela não acreditou e colocou toda a culpa em mim”, conta.

A situação melhorou um pouco dois anos depois, quando os pais se separaram e o malfeitor foi embora. Contudo, durou pouco a calmaria, já que no ano seguinte a mãe faleceu. Alyne tinha 11 anos e a responsável pela família passou a ser a irmã mais velha, na época com 18 anos. “Minha irmã não ligava para mim, ás vezes deixava sem comida, para beneficiar só o filho dela. Quando ela começou a me bater, resolvi fugir de novo”, afirma.

Com 12 anos foi para a rua novamente, quando conheceu o crack. “Era uma vida miserável e a droga ajudava porque trava a fome e fazia o pensamento ficar em branco. Quando percebi já estava viciada. E junto sempre bebida alcoólica”, diz.

Vírus
Com 15 anos, Alyne foi convidada por uma tia para morar com ela, em uma casa na CIC. Foi nesse bairro que conheceu um rapaz, também alcoólatra e viciado em drogas. Ela se apaixonou e foi morar com ele em Guaratuba. “Ele passou a me bater, perdi um filho, minha vida virou um inferno. Além do mais, não me contou que tinha HIV e acabou me passando”, relembra.

Mais uma vez ela saiu fugida. Voltou para a rua e foi parar em um albergue da FAS, no Boqueirão. Ficava doente e nunca se curava. Foi quando viu uma propaganda do teste de HIV e decidiu fazer. Deu positivo, mandaram refazer. Oito meses depois, uma psicóloga contou a ela. “Achei que eu ia morrer, que minha vida tinha acabado”, explica.

Preconceito
Ela foi encaminhada para um abrigo só de meninas, também no Boqueirão. “A psicóloga da FAS tinha me explicado que existia um tratamento, que eu não iria morrer. Que se eu me cuidasse eu ainda viveria bastante. Então o meu medo passou a ser do preconceito”, diz.

No abrigo ela não enfrentava preconceito, porém da família ela enfrenta até hoje. “Não tenho contato com minhas irmãs. A última vez que tive, fui almoçar na casa de uma delas. Meu marido viu que ela jogou o prato e os talheres que usei no lixo. Nunca mais voltamos”, diz magoada.

Gravidez
Alyne conheceu Elias por meio de uma irmã, que namorava o irmão dele. Logo também começaram a namorar. Ele era viciado, mas ambos tinham vontade de largar a droga. Foi quando aconteceu o episódio que mudou a vida dele. Em uma festa ele foi defender a irmã de quatro homens que mexiam com ela. Acabou espancado e passou um ano no hospital.

Ela cuidou dele como uma enfermeira. Dava banho, limpava os ferimentos, trocava roupa, alimentava. E assim a relação se fortaleceu. Um deu força ao outro para largar o vício, nisto foi fundamental a ajuda da igreja. Mesmo ao saber que ela era soropositivo, Elias continuou ao seu lado. Para completar a família e dar ainda mais alegria faltava um filho.

O casal só mantém relação sexual com uso de preservativo. Porém para engravidar era preciso abrir mão disto. “Conversei com a médica e ela disse que era possível, sem contaminar ele. Aumentei a dose do coquetel até ficar com a carga viral bem baixa, a ponto de não ter força para contaminar. Quando coincidiu de estar no período fértil a médica avisou que era o dia. Precisamos de somente uma tentativa e hoje ela esta aqui”, afirma.

Vitoriosa
A casa garante a segurança que a família necessita para levar a vida. “As vezes eu nem acredito. Paro e penso: eu tenho uma casa. Depois de tudo que eu passei, recebi este presente maravilhoso. Fico emocionada em falar”, resume. Alyne recebe acompanhamento especial da Secretaria Municipal da Saúde, da FAS e também das assistentes sociais da Cohab e é considerada por todos uma vencedora.

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