Publicado em 4/19/2013 10:15:13 AM

Aldeia indígena de Curitiba luta para preservar cultura

Vivendo em ambiente urbano, índios da Kakané Porã se esforçam para ensinar costumes e a língua nativa às crianças

A maior preocupação das 35 famílias indígenas que vivem na aldeia urbana Kakané Porã, no Campo de Santana, é manter viva a cultura, em especial, a língua caingangue. “Desta maneira nós não perdemos a nossa identidade, mesmo vivendo há vários anos dentro de uma metrópole”, afirma Rosana Salete Rodrigues, moradora local responsável por ministrar aulas do idioma nativo para as 63 crianças da aldeia.

Em Kakané Porã vivem descendentes de três diferentes etnias -  são quatro famílias de guaranis, quatro de xetás e 27 de caingangues. Em dezembro de 2008, eles foram transferidos para o empreendimento construído pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) após viverem por seis anos em condições precárias no Parque Cambuí, próximo a São José dos Pinhais.

Adaptados à vida em meio urbano, os índios lutam para preservar suas tradições. “Todos os índios que vivem aqui trabalham em empresas, temos pedreiros, metalúrgicos, motorista, padeiro. Usamos carros, motos, roupas da cidade, já estamos acostumados com a cultura do homem branco. Mas não podemos esquecer das raízes, porque senão elas acabam se perdendo e não queremos apagar a nossa história”, ressalta o cacique da aldeia, Carlos Luis dos Santos, 49 anos.

As 35 casas construídas pela Cohab em área de 44 mil metros quadrados são dispostas em círculo, sem muros separando os lotes e com uma oca de madeira na praça central. É ali que, desde o ano passado, Rosana ensina a língua caingangue para as crianças locais. “Elas frequentam diariamente a escola municipal e duas vezes por semana no contraturno dou as aulas de caingangue”, conta a professora.

Além de ser o palco das aulas de caingangue, a oca central é utilizada para outras finalidades. Lá são realizados cultos e apresentações culturais. É também onde a comunidade se encontra, para a realização das reuniões mensais com os moradores. “Discutimos os assuntos de interesse coletivo, levamos as novidades para toda a aldeia”, explica o cacique.

Aulas
Segunda e quarta, de manhã e à tarde, acontecem as aulas para a crianças, com quem Rosana trabalha além do idioma nativo, a parte de coordenação motora, com desenhos e pinturas. Terça, quinta e sexta, à noite, são ministradas aulas para os adultos. “Temos muitos adultos que se esqueceram de nossa língua e agora também têm a chance de reaprender”, conta ela.

É o caso do padeiro e confeiteiro José Inácio da Silva, 44 anos. “Eu ainda falo, inclusive dentro de casa, o caingangue, mas não sei escrever. Então comecei a ir nas aulas da Rosana para aprender a parte de escrita. É muito importante que principalmente os os mais novos aprendam a língua, é uma garantia de que nossa cultura não vai morrer”, diz ele.

Atrás do quintal de sua casa, Inácio planta chuchu, feijão, cana-de-açúcar e abóbora. “Nós comemos a mesma comida do homem branco, mas algumas vezes ainda cozinhamos comidas de índio, como o bolo de milho e farinha de trigo assado na folha de bananeira direto na fogueira. Adoramos o fogo, nossos garotos aprendem desde pequenos a fazer fogo”, conta o padeiro.

Artesanato
Outro aspecto da cultura caingangue que sobrevive em Kakané Porã é o artesanato, que ajuda no sustento de boa parte das famílias. A esposa de José Inácio é artesã desde quando era moça e vivia em uma aldeia no Rio Grande do Sul. Santina Inácio, 57 anos, produz cestos feitos de taquara, que é uma espécie de bambu.
Todos os dias ela levanta cedo e sozinha realiza todas as etapas do processo. “Pego a taquara, raspo, corto em tiras, depois faço as fitas e vou trançando até as peças ficarem prontas. Aí passo tintura nas fibras para o cesto ficar bem bonito”, relata. Os itens são vendidos em feiras no centro da cidade. Por um cesto grande ela cobra R$ 40,00. “É um dinheiro que ajuda a manter a casa”, diz ela.

Comunidade
Um dos fatores que mais agrada os índios que moram em Kakané Porã é poder viver em comunidade, porém com qualidade de vida. “No Cambuí a gente vivia em comunidade, mas era uma situação muito difícil. Estávamos amontoados, não tinha divisão de uma moradia para cada família, sem tratamento de esgoto. Alguns dos nossos morreram lá por causa das más condições”, afirma o cacique Carlos.

Na aldeia construída pela Cohab, os indígenas contam com toda infraestrutura para levar uma vida digna. No mês de dezembro, a fundação da aldeia Kakané Porã vai completar cinco anos. “Estamos muito felizes aqui. É um lugar tranquilo, ninguém nos incomoda. Temos boas condições e somos muito gratos à Cohab e à Prefeitura pelo atendimento que recebemos”, finaliza o cacique.

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