Publicado em 2/12/2014 4:17:29 PM

Amostra da sociedade, vida em condomínio reflete desafios das relações humanas

Serviço social da Cohab auxilia famílias a viverem de maneira harmoniosa nos conjuntos habitacionais

Viver em condomínio é algo desconhecido para boa parte das famílias beneficiadas com moradias do programa habitacional do município. Com objetivo de auxiliar os síndicos a manterem uma boa convivência entre os moradores, a equipe do serviço social da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) realiza um trabalho de pós-ocupação nos conjuntos entregues. A ideia é despertar nos moradores noções de coletividade que facilitem o convívio entre pessoas de diferentes hábitos e culturas.

O Residencial Parque Iguaçu I, conjunto de 416 apartamentos no bairro Ganchinho, foi entregue aos moradores em setembro do ano passado. O empreendimento, construído com recursos do programa Minha Casa Minha Vida, foi destinado para inscritos na fila da Cohab com renda até R$ 1,6 mil e também para moradores que foram transferidos de áreas de risco social. São 416 famílias de realidades diferentes que passaram a habitar o mesmo espaço. O desafio é constante para manter a boa convivência.

Das famílias residentes no Parque Iguaçu I, 411 vieram da fila da Cohab. São pessoas que viviam em casas alugadas ou cedidas por parentes, portanto sem experiência de vida em condomínio. O mesmo ocorre com as cinco famílias que foram retiradas de áreas de risco, como ocupações irregulares em beira de rio. Neste caso as famílias viviam na informalidade, sem a obrigação de pagar contas de água e luz. “Elas passaram a fazer parte da cidade formal e, por isso, além da moradia, é preciso um trabalho de apoio neste período de adaptação a uma nova realidade”, afirma o presidente da Cohab, Ubiraci Rodrigues.

Antes mesmo da mudança das famílias para o novo conjunto, Sandra Mara dos Santos, 38 anos, foi eleita síndica do condomínio. A escolha foi feita na assembleia que instituiu o condomínio e seu regimento interno. “Apesar de saber que nunca vou agradar a todos, gosto deste trabalho. Sei da importância da minha atuação para que os quase 2 mil moradores convivam em ordem”, explica.

Trabalho social

No mês seguinte à entrega das chaves para os moradores, os técnicos da Cohab iniciaram o trabalho social no conjunto. Nestes quatro meses foram realizadas ações para auxiliar os moradores a compreenderem seus direitos e deveres dentro do condomínio. “Um conjunto habitacional é um microcosmo que reflete a vida em sociedade como um todo. Conflitos são naturais, pois as pessoas têm visões de mundo diferentes. Nosso papel é fazer os moradores entenderem que, mesmo sendo diferentes, todos precisam respeitar as mesmas normas”, diz a assistente social da Cohab, Patricia Michelini Scherner.

Uma vez por semana Patricia faz plantão no conjunto, para juntamente com a síndica abordarem questões referentes à boa convivência dos moradores. Como a maioria das famílias jamais havia morado em um condomínio, há a dificuldade na adaptação. Muitas fazem confusão a respeito da função do síndico. “Como nunca pagaram taxa de condomínio antes, tem morador que acaba confundindo. Alguns imaginam que, por estarem pagando, o síndico deve atuar como um empregado seu e pedem inclusive serviços particulares, como cuidar das crianças e pagar contas”, explica a assistente social.

Para auxiliar na difícil missão, a Cohab conta com a atuação de outros órgãos da administração municipal. “Recentemente chamei uma equipe do Conselho Tutelar para dar uma palestra aos moradores, sobre os deveres dos pais, com objetivo de ajudar a síndica neste trabalho de conscientização”, conta Patricia. Também já foram até o local equipes da Secretaria Municipal da Saúde para falar dos cuidados para evitar a proliferação dos mosquitos da dengue e da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que ressaltou a importância da correta separação do lixo.

Divergências
Ao todo são 26 blocos com 16 apartamentos cada. Com um número tão grande de pessoas habitando o mesmo espaço fica fácil imaginar a ocorrência de conflitos. “Isto é normal, ainda mais para pessoas que nunca moraram em condomínio. A maior parte das situações envolve divergências entre adolescentes e idosos. Os jovens gostam de bagunça e os mais velhos querem sossego. Com educação e respeito é possível apaziguar os ânimos. O que eu peço a todos é que tenham bom senso e sejam tolerantes uns com os outros”, destaca a síndica.

Antes de se mudar para o Parque Iguaçu I, a aposentada Cleusa Beatriz, 65 anos, morava no Sítio Cercado em uma casa alugada e, agora, se diz já bem adaptada à vida em condomínio. O segredo é se preocupar somente com a própria vida. “Não fico cuidando da vida dos outros e não dou liberdade para que ninguém cuide da minha. Até hoje não tive problema com nenhum vizinho”, finaliza.

Individual x Coletivo
De acordo com a psicóloga Cleia Oliveira Cunha, a vida em sociedade requer um grau de empatia com a realidade do outro. “A velha e boa colocação permanece verdadeira: minha liberdade acaba onde começa a do outro. Eu posso festejar, mas o outro possui o direito de repousar”, afirma.

Ela explica que as dificuldades da vida em coletividade não são mais acentuadas nas habitações populares. Segundo a psicóloga, os conflitos acontecem nas mais diversas esferas porque o coletivo fica em segundo plano em relação ao individual. “A vida nas metrópoles destaca-se pela heterogeneidade, favorecendo uma percepção do coletivo cada vez mais fragmentado. Estamos vivendo em uma época onde o individual tem sido exacerbado em detrimento do coletivo. O que importa é a satisfação das necessidades individuais, acarretando conflitos no trânsito, no transporte coletivo, nas filas”, afirma.

No caso dos condomínios, Cleia destaca a importância de pensar em estratégias que mobilizem cada individuo para que se expressem e trabalhem em ações que envolvam o comunitário. “O fortalecimento dos espaços de discussão deve ser uma constante, pois em um grupo disposto a discutir uma questão comunitária, todos os participantes tem algum poder”, conclui.

E é isto que a síndica Sandra Mara dos Santos tem procurado fazer no Residencial Parque Iguaçu I. “Estimulo todos os moradores a participarem das reuniões e assembleias, porque os assuntos discutidos dizem respeito ao coletivo.  Todos devem expor suas opiniões, mas as decisões tomadas precisam ser acatadas. Querendo ou não, os moradores terão que conviver juntos. Ninguém é obrigado a gostar do vizinho, mas é dever de todos se respeitarem”.
 

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