Publicado em 3/14/2014 3:15:32 PM

Pesquisa de mestrado na Alemanha avalia impactos do PAC no desenvolvimento urbano de Curitiba

Assistente social da Cohab pretende analisar o que mudou na vida das famílias participantes do programa

O que mudou na vida das famílias curitibanas que foram atendidas pelos projetos da Cohab que receberam recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)? Esta é a principal questão da pesquisa de mestrado da assistente social Rosângela Gomes, que está na Alemanha desde 2012 cursando mestrado em Planejamento Regional, pelo Instituto de Tecnologia de Karlsruher – cidade alemã com cerca de 300 mil habitantes, situada próxima a Stuttgart.

Assistente social da Cohab desde 2006, ela está com o contrato suspenso em virtude do mestrado que está fazendo na Alemanha. Antes de embarcar para estudar na Europa, ela coordenou o trabalho social no projeto de urbanização da bacia do rio Formosa. Rosângela retornou a Curitiba no início de fevereiro para realizar o trabalho de campo referente a sua pesquisa.

“O objetivo da pesquisa é analisar o impacto do programa no cotidiano das famílias atendidas, em aspectos como moradia, saneamento, infraestrutura, serviços públicos e questões ambientais. Pretendo ouvir da própria população que efeitos o programa causou, além de entrevistar também os profissionais que planejaram as ações, para determinar o que deu certo e o que pode ser melhorado em projetos futuros”, explica a mestranda.

Como objeto de estudo, Rosângela escolheu dois entre os 19 projetos da Cohab que receberam verbas do PAC: a urbanização da Vila Terra Santa, no Tatuquara, por se tratar do projeto mais avançado (97% concluído) e a urbanização da Bacia do rio Formosa, no qual ela trabalhou como assistente social.

A relação com as comunidades carentes, porém, vem antes de Rosângela se tornar uma profissional da área social. Ela própria foi nascida e criada em uma das favelas mais antigas de Curitiba, a hoje Vila Nossa Senhora da Paz, no Santa Quitéria. “Minha mãe sempre fez muitos trabalhos sociais voluntários na comunidade. Não digo que foi o motivo que fez eu me tornar assistente social, mas certamente influenciou”, afirma.

Na quarta-feira (12), Rosângela organizou um grupo de discussão com moradores da Vila Terra Santa, para colher os depoimentos das famílias residentes no local, sobre a percepção delas a respeito das mudanças ocorridas em decorrência da intervenção da Cohab. Os participantes relataram como era a vida antes do início do projeto e como a comunidade se encontra agora.

Terra Santa
Entre a primeira leva de famílias que chegou ao morro tomado por mata nativa situado no Tatuquara, estava Dona Ana Pereira Marques, 54 anos. “Tinham muitos pinheiros, muito mato. Derrubamos bastante coisa quando chegamos. No início eram cerca de 30 famílias. Montamos os barracos de lona, alguns de madeira e assim começou, em 1998”, lembra.

O nome Terra Santa foi escolhido em uma votação feita entre os pioneiros. Obteve mais votos do que as opções Jardim Floresta e Boa Esperança. Na época, água para beber e cozinhar, somente buscada em uma nascente que havia nas proximidades e a luz era obtida por meio de 'gatos'.

Entre os primeiro moradores Ana era conhecida como Ana 'da sopa'. “A gente ia no Ceasa, catava as verduras descartadas pelas barracas e escolhia as melhorzinhas. Eu comprava um dorso de frango e fazia o panelaço. Distribuía na janta todo santo dia. E assim foram alimentadas as crianças daquelas famílias. Hoje estão adultos”, relembra ela, que atualmente é a presidente da associação de moradores.

No ano seguinte chegou José Roque Gregorovicz, o seu Vanjo, outra liderança local. A comunidade já havia aumentado então seu Vanjo cortou uma grande árvore com bifurcação e instalou o primeiro poste.”Tinha que organizar aquele emaranhado de fios, estava ficando muito perigoso. Conforme ia chegando mais gente, um ia roubando a eletricidade do outro com os gatos. Aí a luz caía o tempo todo, era complicado ”, conta ele.

A população local foi crescendo mas a vila continuava carente de infraestrutura. Não havia asfalto nas ruas nem ponto de ônibus. O lixo eles enterravam ou queimavam, pois não chegava a coleta.  Os moradores saíam para trabalhar com sacos plásticos amarrados nos pés, já que a quantidade de barro era enorme. “Os banheiros a gente cavava buracos bem fundos e fazia a casinha”, recorda a dona de casa Sebastiana Prado.

Urbanização
No ano 2000, chegou a luz elétrica e a água encanada. Dois anos mais tarde a Cohab iniciou o trabalho no local, quando cadastrou 1.077 famílias. “Nessa época existia uma escassez de recursos para investimentos na área de habitação. Somente em 2007 com o PAC é que a intervenção da Cohab começou a se transformar em obras”, explica Rosângela.

A verba do governo federal somada à contrapartida da Prefeitura representou investimentos de R$ 21 milhões. As 479 famílias que habitavam um fundo de vale foram transferidas para um novo empreendimento construído no mesmo bairro, o Moradias Laguna. Outras 210 que também estavam em situação de risco foram reassentadas em novas casas dentro da própria vila. As demais foram atendidas com pavimentação total das ruas, implantação de redes de drenagem e esgoto, iluminação pública e titulação de seus lotes.

O projeto incluiu ainda a construção de uma creche e um CRAS no Moradias Laguna e a recuperação ambiental da área que havia sido degradada pela ocupação indevida. A vegetação foi recomposta e foram implantadas canchas esportivas e calçada compartilhada para pedestres e ciclistas.

De acordo com a presidente da associação de moradores, muitas pessoas que desacreditaram no início e foram embora, acabaram se arrependendo após ver tudo pronto. “Aqui está um paraíso em vista de como era antes. Tudo asfaltado, com oito linhas de ônibus, água luz, coleta de lixo, serviço de correio. Hoje sim podemos dizer que fazemos parte da cidade”, destaca Ana.

Análise
No dia 23 de março Rosângela volta para a Alemanha para concluir a sua pesquisa. Além dos trabalhos em grupo desenvolvidos e das entrevistas realizadas, a mestranda também reuniu uma série de dados e indicadores sociais, demográficos, econômicos, ambientais e de infraestrutura. “Tive contato com técnicos do IPPUC, da FAS, do Meio Ambiente, Agência Curitiba e Sanepar. Com base em todo este material coletado será possível fazer uma importante análise do contexto do desenvolvimento urbano de Curitiba a partir dos projetos de reassentamento”, encerra.

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